segunda-feira, 17 de maio de 2021

ENTREVISTA COM MERIKOL DUARTE

 19/04/2021 às 09h18



Se você pensa em transição de carreira, superação de desafios físicos, maternidade versus trabalho. Ama práticas de Yoga, Comunicação Não-Violenta (CNV), Programação Neurolinguística (PNL), Reiki, Mindfulness, conheça a interessante história, cheia de nuances e mudanças de Merikol Duarte!

Conte-nos um pouco sobre sua jornada pessoal e profissional?

Minha jornada começou cedo, desde pequena sempre tive alguns questionamentos, não entendia certas coisas, sempre fui muito curiosa e lembro que perguntava muitas coisas para os meus pais e algumas vezes o meu pai dizia: tudo tem a hora certa, tem certas coisas que ainda é muito cedo para você entender e me deu um dicionário de presente (risos)!

Comecei a trabalhar cedo e isso fez com que eu amadurecesse mais rápido. Comecei a dar aulas de informática aos 14 anos. Com quase 17 anos, já cuidava de uma das escolas de informática, coordenava, gerenciava e dava aulas. Fiquei muitos anos ali, mesmo na época em que sofri acidente de carro, com quase 17 anos, após me recuperar, voltei à ativa. Depois de algum tempo, nem todo ouro me seduzia e senti que precisava buscar outras experiências e fui morar em Arraial d´Ajuda. Passei uma temporada lá, com o namorado, cunhado e irmão. Foi uma experiência interessante.

Tive que voltar para Sampa, pois tive um problema nos olhos e ao chegar em SP, descobri que o ceratocone havia avançado (em um dos olhos) e teria que entrar na fila do transplante de córneas e ai começou outra jornada. Fiquei alguns anos em Sampa, fui cursar faculdade de Comunicação Social com especialização em Publicidade e Propaganda e fui trabalhar numa construtora.

No terceiro ano da faculdade tive que trancá-la e recebi uma proposta de trabalho numa gráfica multinacional no Rio de Janeiro e então decidi me mudar com mala e cuia. Foi uma aventura e tanto. Lembro-me que nessa época eu tinha uma autoestima um pouco baixa e morar sozinha no Rio me ajudou a me conhecer um pouco mais, e foi ali que começou minha jornada voltada ao autoconhecimento.  Durante os primeiros meses que trabalhei na gráfica, fiquei estudando sobre a área de Ti, voltei para a faculdade de Publicidade e através de uma prima minha que morava lá e trabalhava numa empresa de tecnologia, tive a oportunidade de participar de um processo seletivo para atuar como coordenadora de Help Desk na PUC.

Como eu tinha experiência na área de informática, consegui passar no processo seletivo e trabalhei durante um período na PUC. Foi incrível a experiência. E nesta mesma empresa, fui convidada para fazer um curso de auditoria da ISO 9000, para atuar como coordenadora na área de qualidade e lá fui eu fazer o curso em Petrópolis. Migrei de área, fui coordenar a área durante alguns meses, mas senti que tinha algo mais, que esse não era o meu caminho, então resolvi sair da empresa e fiquei durante um período prestando consultoria para pessoas físicas e jurídicas na área de informática. Conheci pessoas incríveis, e com amigos latinos criamos um projeto voltado à música latina e passei um período produzindo eventos latinos por lá.

Voltei pra São Paulo, fui trabalhar na área comercial numa empresa de engenharia e reencontrei o primeiro amor da minha vida, engravidei, nos casamos, me mudei para o sítio, mas decidi que continuaria a trabalhar, então durante dois anos, a cada 15 dias, a minha vida foi entre Sampa e Águas de Lindóia. Um momento intenso, mãe de primeira viagem, viajando com o bebê, trabalhando, lidando com questões da vida…. Trabalhei um período com produção de shows de bandas (RPM, Tihuana) numa produtora… E passados alguns anos, me separei, me divorciei, tive crises de stress e senti que precisava de ajuda para saber o que estava acontecendo comigo. Fiz terapias, mas senti que não era esse o caminho, então decidi me inscrever num curso de formação e autoconhecimento em yoga e parece que ali a chave começou a virar.

Atuei durante mais de 20 anos no corporativo como Gerente de Negócios, Coordenadora, Produtora de shows e saraus, passei por empresas dos segmentos de Engenharia, Construtoras, Tecnologia da Informação (TI), Escolas de Informática, Produtoras. E em 2013, num momento de transição, resolvi mergulhar no caminho do autoconhecimento, onde participei de imersões, retiros, fiz vários cursos voltados ao desenvolvimento humano e autoconhecimento para ampliar o meu conhecimento.

Criei em 2015 o Inspirar Ser, um projeto voltado às práticas integrativas, onde ofereço práticas de Yoga, Comunicação Não-Violenta (CNV), Programação Neurolinguística (PNL), Reiki, Mindfulness…. Para empresas, escolas, espaços e eventos.

E desde então, sou estudante de CNV, Mindfuness, Aprendizagem Ágil, Agile Learning, Design Thinking, Teoria U, Sociocracia, Pedagogia.

Facilito vivências, onde utilizo ferramentas que ajudam no processo de desenvolvimento e florescimento das pessoas que também queiram trilhar por este caminho do autoconhecimento. Já realizei vivências, workshops, aulas, em diversos lugares da capital de São Paulo e interior.

Atualmente, decidi seguir esse caminho, utilizando o meu próprio nome para divulgar os serviços que ofereço.

Você enfrentou diversos desafios após um acidente de carro sofrido na adolescência. Conte-nos um pouco sobre sua recuperação e o que mudou em sua vida?

Sofri acidente de carro, junto com meus irmãos (na época estavam no carro comigo, duas irmãs e um irmão, pois o outro irmão era criança e estava em casa), eu iria completar 17 anos dali a alguns dias. Foi bem desafiador, pois fiquei vários dias no hospital, pois estava com anemia, tive que tomar transfusão de sangue e só poderia realizar a cirurgia no fêmur, após me recuperar da anemia. Foram dias difíceis. No ano seguinte tive que refazer a cirurgia e novamente recebi transfusão de sangue, pois quando os médicos foram fechar os pontos, começou a vazar sangue pela perna e fui transferida para o CTI para ficar em observação durante alguns dias. E durante esses dias, eu vi a minha vida passar em segundos, bateu um medo de nunca mais poder andar, bateu o medo de morrer e não ter vivido metade da vida…

Vários questionamentos surgiram. Lembro-me que quando ouvi um “crec” na perna e senti dor, e ir a alguns médicos para saber se estava tudo bem com a minha perna, antes de fazer a segunda cirurgia. O médico foi bem seco e me disse que não tinha jeito, que a placa havia quebrado e que deveriam amputar a minha perna. Na época, com 18 anos, quase pirei, então meu pai, minha mãe e meus irmãos, decidiram que iríamos encontrar uma solução. Foi quando num dia com muita dor, fomos a um hospital e um médico resolveu me internar e disse que faria a cirurgia e rolou tudo o que citei acima. Foram aprendizados difíceis, mas que anos depois, fui entendendo que tudo aquilo aconteceu para me tornar mais forte. E não amputei a perna.

Você foi mãe pela primeira vez aos 30 e depois por volta dos 40 anos. Como tem sido essa experiência com as meninas? E quais as diferenças entre as gestações e criação?

Ser mãe me tornou uma pessoa melhor, pois é total entrega. Sei que tenho muitos defeitos e muitas qualidades, que sou um ser imperfeito, mas que busca melhorar a cada dia e a maternidade me traz, a cada dia, este olhar de buscar a melhoria continua. Não só para mim, mas para as minhas filhas, familiares, amigos e para as pessoas que cruzam o meu caminho.

A minha primeira gestação foi mais tranquila, o parto foi normal, foi lindo, regado a muito amor, velas, incenso, mantras e na época, eu nem conhecia muito sobre os mantras. Já a minha segunda gestação, foi um pouco mais delicada, pois foi de risco, tive que diminuir o ritmo e tive que fazer uma cesárea para não comprometer a vinda do bebê. A recuperação foi tensa. Durante meses sentia dores, e por recomendação médica não podia fazer exercícios, nem praticar yoga para me recuperar. Foi desafiante.

É uma benção poder sentir crescer uma vida dentro de nós. Ouvir o coração pulsar, sentir pele a pele o bebê mamar e te olhar com ternura. E mesmo as noites mal dormidas, as preocupações e grilos que batem às vezes, com perguntas como “será que estou fazendo isso certo?”, eu olho pra mim mesma e digo, está tudo sempre certo, do jeito que está. Você está fazendo o seu melhor, continue. Viva um dia de cada vez. Aprenda a aceitar o que não pode ser mudado e transformar o que pode e siga em frente. E assim tem sido. E a diferença de idade entre elas, é muito boa. Pois em cada fase, sinto que cresci um pouco mais e que posso entregar o meu melhor a cada uma com amor, cuidado, proteção. Comprometimento e apoio.

Você sempre foi muito intensa e viveu um bom período de experiências em terras cariocas. Como foi sua vivência no Rio de Janeiro? E qual o período?

Como disse anteriormente, a vida no Rio para mim, foi um divisor de águas, pois me ajudou a entender um pouco mais sobre quem eu sou na essência. Foi um período libertador, de experiências intensas. Conheci pessoas e lugares interessantes. Fortaleci amizades que nutro até hoje, pessoas que conheci por lá e que algumas delas se tornaram como irmãos. Cresci muito ali, foi ali que tive o primeiro contato com o yoga, comigo mesma. Foi o cenário propício para fazer brotar em mim sementes da transformação que viriam anos mais tarde.

Quem é a Merikol hoje? Quais são suas prioridades?

Merikol hoje é uma pessoa que busca a simplicidade, viver com cada vez menos. O meu ditado tem sido: “Menos é mais”.  O caminho da espiritualidade, do autoconhecimento e florescimento do Ser me mostrou que em cada um de nós existem camadas e assim como a cebola, a cada camada que a gente tira, a gente vai descobrindo um pouco mais e se quisermos podemos chegar às profundezas de nós. Já aviso, que quando a gente começa a descascar essas camadas, o processo não é tão bonito assim, pois a gente fica de cara com o melhor e o pior de nós, a gente fica de cara com as nossas sombras e as nossas luzes. A gente nunca é mais o mesmo e que bom. Sinto que o processo de transformação e transmutação aproxima quem está na mesma vibração que você e afasta aqueles que não estão mais na mesma sintonia. A gente vai afinando o instrumento de nosso espírito, de nossa alma. É libertador e ao mesmo tempo pode ser assustador, pois nos revela quem nós somos na essência, no entanto, sigo cada vez mais descascando o meu Ser e mergulhando profundamente nesse caminho, pois somente assim, faz sentido para mim, viver e seguir de alguma forma. Podendo me inspirar a ser melhor e quem sabe, poder inspirar outras pessoas.

Você acha possível conciliar uma carreira na área comercial, com outra mais voltada às terapias holísticas e afins?

Acredito que é possível sim. Após o nascimento da minha segunda filha, fiquei um tempo em stand-by para me recuperar de uma gestação de risco. E recentemente, voltei a trabalhar na área comercial em Home Office. As práticas voltadas ao desenvolvimento humano ainda não retornei, pois, a bebê demanda bastante e com a pandemia, ainda não foi possível retornar, mas em breve, aos poucos, pretendo voltar às atividades, mas oferecendo práticas online.

Hoje você é casada com um artista plástico, músico e designer. Fale um pouquinho sobre o Beto Boaretto para o público? E o que mudou em sua trajetória com essa união?

Eu me casei novamente e temos uma filha desta união. O Beto é publicitário e também atua como músico, artista plástico e designer. O interessante da minha vida, é que não planejei a trajetória. No passado, já fiz alguns planos e imaginava como seria a minha vida com essa idade, mas o universo tem a sua magia. E muitas coisas mudaram. Aprendi a aceitar o que é. Sei que é importante seguir na direção de nossos sonhos, no entanto, sei também que não temos o controle de nada, então aprendi a fortalecer a minha fé e a confiar cada vez mais na providência divina e no tempo das coisas. Vou plantando as sementes, regando, nutrindo e sei que aquilo que planto colherei no tempo certo. Maktub.

O que você espera para o futuro? Como se vê daqui há alguns anos com relação à família, trabalho, vida?

Estamos vivendo uma transição planetária rumo a um mundo de regeneração e temos visto que a pandemia veio para transformar tudo aquilo que conhecíamos. Temos visto grandes empresas quebrarem, novos negócios surgirem, a humanidade tomando outros rumos, alguns acordaram e outros permanecem dormindo, anestesiados e acreditando que o mundo voltará ao normal (o problema era o normal).

Tenho aprendido a viver um dia de cada vez. É claro que vislumbro um futuro, no entanto, não crio tantas expectativas, pois tudo pode mudar a qualquer segundo, por isso, o meu lema tem sido, viver um dia de cada vez, respirando, agradecendo, aceitando, soltando, perdoando e sendo uma pessoa melhor para mim e para o mundo.

Você pensa ou já pensou em morar no exterior? O que tem enxergado no Brasil em termos de estrutura no geral?

Já pensei em morar no exterior, no entanto, sinto que a minha jornada, pelo menos por alguns anos, ainda é por aqui. Temos visto o momento delicado que o Brasil e o mundo estão passando. No entanto, acredito que as coisas vão melhorar. Ainda passaremos por alguns momentos desafiadores, mas os ajustes são necessários para essa mudança que está acontecendo. Somente quem “tem olhos consegue ver e quem tem ouvidos consegue ouvir”.

Que mensagem poderia deixar às pessoas que sentem dificuldades em fazer transição de carreira, ou se sentem engessadas de alguma maneira, mas gostariam de mudar suas vidas?

É importante estarmos conectados ao nosso core (mente, espírito e coração), cultivando a atenção plena, permitindo observar o que está acontecendo dentro e fora de nós e ouvir a voz interior, a essência de nosso Ser. Sugiro que faça algo que faça sentido para você. Algo que tenha um propósito, que você saiba qual é a intenção real. Não faça algo apenas pela grana, poder, status. Faça algo que você acredita que está em consonância com a essência de quem tu és, pois somente assim, a encarnação neste planeta terá valido a pena.

Contatos: http://www.merikolduarte.com.br

extraído: ENTREVISTA COM MERIKOL DUARTE | Revista Statto

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ENTREVISTA COM O TERAPEUTA GUILHERME YANAGIDA - revista STATTO

 08/04/2021 às 14h34



Conte um pouco sobre sua trajetória profissional. O que te fez escolher psicologia?

Dificilmente encontramos pessoas que estão realmente dispostas a nos escutar, a prestar a atenção no que realmente queremos dizer. Durante a minha adolescência, percebi que era um bom ouvinte, que gostava de escutar e de tentar ajudar as pessoas de alguma forma e as pessoas que estavam mais próximas de mim, me davam esse feedback. No fim do colégio, esses fatos me fizeram pensar em psicologia. Entrei na faculdade de psicologia logo depois de me formar, em 2010 quando tinha 17 anos de idade. Depois de cinco anos de faculdade, já formado, logo iniciei minha atuação atendendo adolescentes e adultos em psicoterapia. No final do mesmo ano comecei a trabalhar também em uma clínica de hemodiálise. Durante esses anos de formação, além da área da saúde e trabalhar em uma equipe multidisciplinar, passei por experiências na área acadêmica, realizei palestras, orientações e iniciei minha pós-graduação em terapia cognitiva comportamental.

Existem diversas formas de se fazer uma terapia. Conte para nós as mais utilizadas e como funcionam?

Sim existem várias formas de atuação no campo da psicologia, e a psicoterapia é apenas uma delas e é a mais conhecida, mas esse profissional também tem capacidade de desenvolver trabalhamos eficazes atuando no âmbito escolar, jurídico, organizacional, do esporte, do consumidor, entre outras. Vale ressaltar que todas elas devem ter um embasamento teórico, um bom psicoterapeuta, por exemplo, é aquele que leva a sério as técnicas que se propõe a estudar e a praticar, afinal a psicologia é uma ciência!

Acredito que as formas mais conhecidas de um psicólogo atuar em psicoterapia são a psicanálise, a junguiana e a cognitivo comportamental. A TCC – Terapia Cognitivo Comportamental, linha da qual atuo, trabalha basicamente com o princípio de que a nossa cognição (crenças, pensamentos, percepções) influencia nossas emoções e nossos comportamentos. Portanto, o tratamento nessa forma de atuação, trata de aspectos que não estão saudáveis e funcionais dentro dessa tríade: cognição, emoções e comportamentos.

Se você pensa de forma distorcida ou não realista, por exemplo, esse tipo de pensamento pode gerar emoções negativas e comportamentos prejudiciais. Suponhamos que você e seus colegas vão ter uma reunião de urgência, e seu chefe não disse o motivo. A forma de cada um interpretar essa chamada para reunião será muito pessoal, enquanto alguns colegas podem estar tranquilos esperando por ela, outros podem ter reações de ansiedade, supondo que coisas ruins podem acontecer, extremas (mesmo sem evidências). Naturalmente a ansiedade é gerada nesse tipo de situação, mas provavelmente aqueles que terão reações acima do esperado, estarão tendo algum tipo de distorção cognitivo: “tenho certeza que só teremos problemas”, “acredito que eu vou ser mandado embora”, “eu sempre fiz tudo certo, e coisas ruins sempre acontecem comigo”, esses pensamentos distorcidos de catastrofização, prever o futuro, e pensar de forma negativa, tem a capacidade de mudar nosso estado emocional, ficando ansioso. Fisiológico como sudorese, taquicardia, alteração no sono e apetite e comportamental, você pode, por exemplo, pedir demissão antes mesmo de saber o que irá acontecer na reunião. 

Os principais focos da TCC são: foco no problema e no presente, o terapeuta e paciente trabalham juntos e de forma mais objetiva e prática.

Por que você optou por trabalhar com a chamada TCC – Terapia Cognitivo Comportamental? 

Porque é uma das linhas que mais existe comprovação científica, isto é, essa forma de atuação nasceu de pesquisas muito sérias de estudos com pacientes com ansiedade e depressão e foi se desenvolvendo em técnicas práticas e objetivas, que fazem com que a psicoterapia seja mais eficaz em um tempo mais curto. Eu me identifiquei com essa linha ainda no início da faculdade, exatamente por esse dinamismo e objetividade, apesar de gostar também de outras, como a psicanálise.

Quais as necessidades mais comuns aos que procuram por uma terapia? É para todos?

Com certeza a psicoterapia é para todos nós! Afinal, todos nós temos algum problema ou alguma dificuldade, mesmo que minimamente. Além disso, a psicoterapia também é para aqueles que estão bem consigo mesmos, e por conta disso, desejam ir além e se desenvolverem, criarem novas habilidades, descobrirem novas possibilidades e se conhecerem ainda mais. Fazendo um panorama dos casos em que atendi desde a época da minha formação, ainda nos estágios, os casos mais comuns são os de ansiedade, seja relacionado com algum estado pessoal ou nos relacionamentos.

Com a atual pandemia aumentou muito o número de pessoas nos consultórios? Por que?

Pelo que tenho visto sim, exatamente por conta da ansiedade. É esperado que em uma sociedade como a que temos vivido, com tantas escolhas, tem nos bombardeado com informações o tempo todo. E nos leva a uma ideia de que estamos conectados com muitas pessoas 24h por dia e que nos diz que precisamos estar felizes, bonitos, e ter relacionamentos perfeitos. Naturalmente nos leve constantemente a ansiedade.

Agora, se acrescentarmos mais uma pandemia em tudo isso, que nos obrigou a nos isolar e ter mais incertezas, sim, as pessoas vão procurar mais formas de aliviar essa tensão, e que bom! As pessoas precisam buscar mais ajuda, e ajuda especializada. A COVID-19 não só trouxe mais problemas, como nos fez encarar aquilo que mais tememos: a nós mesmos e as nossas reais dificuldades.

O que o paciente que busca pela TCC (Terapia Cognitivo Comportamental) deve levar em conta antes de iniciar o tratamento? E o que ele deve esperar após o término? 

Deve levar em conta que o tratamento precisa do engajamento e da responsabilidade dele, a psicoterapia é formada por técnicas e não por fórmulas milagrosas, por isso a eficácia depende da ajuda mútua entre o psicólogo e o paciente, e não só de uma parte. Após o tratamento, o paciente deve estar preparado para ser o seu próprio terapeuta. Na linha da TCC, é ensinado para o paciente as técnicas necessárias para que ele possa lidar com suas dificuldades, presentes e futuras, isso não quer dizer que em algum momento ele não possa retornar ao processo psicoterapêutico, mas que ele terá mais autonomia para lidar com suas próprias questões, de forma prática e eficiente.

Nós seres humanos enfrentamos diversas fases no decorrer da vida. Uma pessoa que já fez terapia no passado poderá novamente sentir a necessidade de buscar essa ajuda no futuro? É comum?

Sim, como disse anteriormente, pode acontecer de alguém querer voltar para terapia, e isso inclusive pode ser muito saudável. Assim como você disse, como seres humanos enfrentamos diferentes fases na nossa vida, e, portanto, somos mutáveis. As coisas mudam constantemente e com elas nossas dificuldades. Há casos bem específicos em que os pacientes ficam durante anos no mesmo processo terapêutico, porém, na maioria dos casos a alta da psicoterapia é necessária para que o paciente caminhe com suas “próprias pernas” e crie essa autonomia. Quando é realizado um bom trabalho, no futuro ele terá ainda mais consciência de quando e porque precisa retornar para psicoterapia.

Ainda existe muito preconceito por parte da população para buscar esse tipo de ajuda. Em sua opinião por que isso ocorre?

Acredito que esteja melhorando, mas ainda existe. Isso ocorre por conta de um problema que está em todos os âmbitos da nossa sociedade, falta de informação. Hoje por conta da liberdade de expressão, que sem dúvida é importante, também fez com que surgissem vários “donos da razão”, as pessoas afirmam sobre algo que muitas vezes nem conhecem a fundo. O preconceito vem exatamente da falta de informação.

Como lidamos com algo muito delicado que é a saúde mental, o “olhar para si”, é mais confortável que eu nem queira entender o porquê devo pedir ajuda. Expressões como: “tenho amigos” e “tenho uma religião” e por isso não preciso de psicólogo, mostra claramente a falta de informação. Entendo por exemplo, que a terapia cognitiva comportamental é uma linha criada a partir de estudos que compravam sua eficácia, e, portanto, científica, o psicoterapeuta jamais pode ser comparado com um amigo ou uma religião, e não que estas não sejam importantes para a qualidade de vida do indivíduo, mas possuem um papel totalmente distinto.

Nós profissionais da saúde, não só os psicólogos, precisamos conscientizar as pessoas ao nosso redor sobre a seriedade e o verdadeiro motivo em procurarmos ajuda de um profissional da psicologia. Eu pessoalmente fico feliz em ver que grande parte das pessoas ao meu redor mudaram seu “pré-conceito” sobre o assunto, porque eu fui o canal de informação, muitos inclusive fazem psicoterapia hoje.

Quais as principais diferenças entre o psicoterapeuta (psicólogo) e o psiquiatra? Atendem as mesmas demandas?

A diferença basicamente está que enquanto o psicólogo trabalha questões emocionais e comportamentais, o psiquiatra trata de aspectos patológicos dessas questões. A psicologia é uma ciência que estuda o homem e seus aspectos mentais e comportamentais, a psiquiatria é uma área da medicina voltada para transtornos e doenças psíquicas. Como psicólogo preciso entender das alterações psicológicas e suas implicações na vida da pessoa, ao analisar, porém, que essa alteração passa para o âmbito patológico (doença) devo encaminhar ao psiquiatra para que tenha um diagnóstico e se necessário o uso medicamentoso para que o paciente tenha mais qualidade de vida. Na maioria dos casos, é recomendado para esse tipo de paciente o tratamento conjunto dos dois saberes, psicologia e psiquiatria, tendo um resultado com mais qualidade. 

Terapia é coisa de “gente rica”? É possível fazer terapia pelo SUS, ou até mesmo ser atendido com preços diferenciados de acordo com a faixa de renda nos consultórios particulares?

Durante muito tempo na história da psicologia, a psicoterapia foi entendida popularmente como algo para pessoas mais elitizadas. Hoje, porém, existem diferentes formas de encontrar esse serviço, dentro do Sistema Único de Saúde, por exemplo, existem profissionais da área. No nosso município, estudantes de psicologia da Unitau (Universidade de Taubaté) e Anhanguera, contam com a supervisão de ótimos profissionais para atender a população. Há alguns consultórios particulares que também flexibilizam seus preços, dependendo do caso.

Cito aqui também o projeto “Foco na mente” do qual faço parte, em que estudantes da Universidade de Taubaté dos cursos de medicina e psicologia se uniram para criar uma rede de apoio a população com foco na saúde mental. O projeto oferece acolhimento, palestras e aulas práticas. Para mais informações acesse a página do instagram: @projetofoconamente

Em sua opinião, terapia online funciona em quais situações e perfis de pacientes?

Esse tipo de modalidade já é autorizado pelo conselho de psicologia e agora na pandemia o número de atendimentos online aumentou expressivamente. Por se tratar de uma forma de atuação ainda recente, existem questões sendo levantadas sobre a ética e a forma mais adequada de se realizar, porém já existem normas e estudos que comprovam que esse tipo de atendimento pode ser tão eficaz quanto o presencial. Tenho realizado atendimentos online desde o ano passado, e confesso que me surpreendi com a eficácia mesmo estando distante fisicamente dos meus pacientes. Ela é indicada para pacientes que estejam impossibilitados de sair de casa (problemas de locomoção ou como agora com a pandemia) ou que morem em locais distantes.

Estamos na era digital, precisamos nos adaptar constantemente, ainda mais no quadro atual que temos enfrentado, é sem dúvida uma tendência que veio para ficar.

Que mensagem você como profissional poderia deixar as pessoas nesse momento de grandes incertezas, angústias e transtornos devido a pandemia?

Resiliência! Precisamos criar aspectos de resiliência, que é a forma saudável que lidamos com nossas dificuldades e aquilo que não temos controle, como agora na pandemia. Precisamos encontrar coisas no nosso dia a dia que nos façam nos sentir mais tranquilos e nos ajude a lidar com a ansiedade que nos encontra diariamente.

Ao encontrarmos um problema, seja interno ou externo, precisamos em seguida pensar: posso fazer algo para resolver esse problema? Se a resposta for não, precisamos tomar um cuidado com nossos pensamentos, e lidarmos com isso de forma realista e não aumentar ainda mais esse problema na nossa mente. Se a resposta for sim, que conseguimos resolver esse problema, crie alternativas para aliviar essa questão e não deixe de praticá-las!

Dentro dos aspectos resilientes, não deixe de cuidar da sua saúde física, faça exercícios em casa, leia livros, assista um bom filme ou série, cuide do seu sono, da sua alimentação, e lembre-se de que precisamos ficar afastados uns dos outros, mas não isolados do mundo, use as ferramentas que a tecnologia nos dá para se conectar com quem você gosta, as nossas relações são essenciais para nosso bem-estar e nossa resiliência.

Não esqueça também que todos nós precisamos de ajuda, caso sinta necessidade, busque um profissional da psicologia e faça psicoterapia, se não puder sair de casa existem psicólogos autorizados pelo conselho para atender no formato online.

E por último, não deixe de se mover, precisamos estar em constante crescimento e aprendizado, independente dos problemas que temos enfrentado, não esqueça que o nosso maior limitador ainda continua sendo nós mesmos.   

Entre em contato pelo meu instagram @yanagida.psicologia

extraído:ENTREVISTA COM O TERAPEUTA GUILHERME YANAGIDA | Revista Statto

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