sexta-feira, 13 de novembro de 2020

ENTREVISTA COM VICTOR MORY: DJ FLORO – DO PERU PARA O BRASIL! - revista STATTO



Tivemos a honra de entrevistar o DJ Floro, muito conhecido nas noites cariocas e também como professor de espanhol na Casa de Espanha do Rio de Janeiro. Ele nos contou como teve sua vida transformada após um grave acidente em janeiro de 2020, quando infelizmente teve que amputar uma de suas pernas. Confira essa linda entrevista!

Victor conte um pouco sobre sua trajetória, quando veio para o Brasil, onde e o que estudou? Hobbies, profissão, etc.

Oi! Tudo bem, meu nome é Victor Mory, cheguei ao Brasil em 1993 e vim para fazer faculdade de administração de empresas na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois que concluí decidi ficar por aqui para tentar trabalhar como administrador. Mas, na prática, não me dei muito bem com administração. E, ao mesmo tempo, comecei a trabalhar como professor de espanhol para ter uma renda extra e acabei gostando mais da profissão da docência do que da administração. Por isso decidi fazer faculdade de letras também, na Veiga de Almeida.

Nesse meio tempo também comecei a trabalhar como DJ de música latina, aproximadamente desde 2007 e tive a oportunidade de tocar em quase todas as academias de dança conhecidas do Rio de Janeiro e sempre música latina!

A comunidade peruana no Rio de Janeiro parece bem unida. Como vocês se relacionam no dia a dia? Eventos, indicação de trabalho, estudos…

Olha a comunidade peruana é bem unida sim, mas eu não estou por dentro das atividades do consulado. Para falar a verdade eu só ia ao consulado para regularizar às vezes documentação ou para seleções que tinham no Peru. Fora isso eu não frequento o consulado, mas sei por algumas pessoas que o trabalho consular do Peru aqui no Rio de Janeiro é bem unido, bem ativo, participa bastante das necessidades dos peruanos residentes aqui.

Você é tradutor e professor de espanhol e trabalhou muitos anos na Casa de Espanha do Rio de Janeiro. Quem geralmente é o seu público para as aulas e traduções? Com a pandemia agora as aulas são “on-line”? Como funciona?

Sim eu trabalhei na Casa de Espanha, que é um clube espanhol no bairro de Humaitá durante 15 anos com carteira assinada. E foi uma experiência muito boa, foi um trabalho muito legal e aprendi muito. Era um curso muito bom, que infelizmente fechou as portas em 2017. Eu dava aulas do nível básico, do nível A1 ao nível superior, o C2. Essas aulas geralmente eram destinadas para adolescentes e adultos. E também dávamos aulas pela Casa de Espanha para empresas, geralmente estrangeiras que tem sede no Rio de Janeiro no Brasil. Ou empresas brasileiras com sede em outros países da América Latina, então a gente treinava os funcionários. As traduções também, a maioria dos trabalhos que eu faço de traduções são artigos em português que serão publicados na América Latina. Às vezes também são teses de conclusão de curso, etc. E também trabalho com revisões. Às vezes os alunos já têm conhecimento prévio da língua espanhola e eles mesmos fazem a tradução usando vários recursos como “Google tradutor”, etc. E aí eu faço a revisão do texto final.

E com a pandemia realmente todas as aulas presenciais que eu tinha acabaram e devido ao acidente que eu tive também não tive como continuar. Mas comecei a me aventurar nesse mundo “on-line” de aulas e realmente, gostei. Gostei muito! Hoje em dia eu não me vejo dando aulas de outra forma. E durante a pandemia tive bastante aluno, porém agora que a pandemia deu uma estabilizada, grande parte dos alunos voltou ao trabalho presencial, então pararam de ter aulas. Então, estou com bastante tempo disponível, se vocês souberem de alguém que esteja interessado, podem me chamar (risos)!

Conte um pouco como surgiu o DJ Floro, tão conhecido nas noites cariocas. Onde você já tocou na cidade maravilhosa e em outras capitais e cidades? Quem é seu público mais assíduo?

Bom como DJ eu comecei um pouco acidentalmente, em 2006 eu morava numa casa grande e fazia festas no quintal da casa. Não festas, eu fazia churrascos para falar a verdade e eu colocava música latina. E as pessoas que eu convidava gostavam da “playlist”.  E um dia um amigo meu, peruano também, que tinha contatos numa casa de festas, numa “boate” e disse que o amigo dele tinha um dia livre para tocar e me perguntou se eu gostaria de fazer o trabalho como o DJ. No começo eu fiquei com certo receio, mas eu aceitei o desafio e foi aí que eu comecei, aproximadamente no ano de 2007.

E daí eu comecei a conhecer pessoas que frequentavam as festas, não só latinos como também brasileiros. E começaram a perguntar se eu gostaria de tocar nas academias, etc. E foi assim que comecei também a tocar em academias! Logo depois eu me juntei com outros amigos e começamos a criar nossas próprias festas, os próprios eventos. Alugando casas no centro do Rio de Janeiro, na Lapa principalmente. Foi assim que comecei…

Aqui no Rio de Janeiro, a maioria do meu público sempre foi de academias e um pouco (em menor medida), o público latino mesmo. E em São Paulo é o contrário, eu toco desde 2018 e comecei tocando uma vez por mês no final de 2018 e no meio de 2019, duas vezes por mês (um sábado sim, outro não). E no 2º semestre de 2019 comecei a tocar todos os sábados até janeiro de 2020 quando tive o acidente. Então em São Paulo é o contrário, a maioria do público onde toco é latino! Talvez porque em São Paulo tem um público latino muito maior que no Rio de Janeiro. É isso…

Em janeiro deste ano você sofreu um grave acidente que mudou sua vida. De quem foi à iniciativa da “vaquinha on-line”, para arrecadação do valor necessário para você colocar a prótese? Você tem recebido ajuda de amigos, familiares? Como estão as coisas?

Bom mais ou menos dois meses atrás eu já estava pensando em fazer essa “vaquinha”, desde julho eu faço reabilitação e faço pilates, então tanto os fisioterapeutas de pilates como os de reabilitação do coto (da perna amputada) já me falaram que já estava na hora de pôr uma prótese. E foi aí que eu comecei a pesquisar, pesquisar em clínicas de reabilitação. E aí pela primeira vez fiquei sabendo de todo um universo diferente. De joelhos pneumáticos, hidráulicos, eletrônicos, de canelas de encaixe, de “liners”, de pés… Enfim, todo um universo novo para mim, então eu fiz muitos orçamentos, fiz vários e cada orçamento, cada perfil depende muito do nível de atividade de cada um. Tem joelhos, pés, etc. Para pessoas sedentárias, para idosos, tem pés, encaixes, para pessoas de meia-idade, quem tem certa atividade, pouca atividade, específico para crianças, adolescentes, tudo isso. Então, diante do meu contexto pessoal, eu fiz o orçamento de um joelho que se adaptaria as minhas necessidades e foi aí que eu cheguei nesse orçamento, nesse valor. Porém, os preços dos joelhos aqui no Brasil são muito altos e eu realmente não teria condições de alcançar esse valor. Então algumas pessoas me falaram que existia esse recurso de fazer essa “vaquinha on-line” e foi aí que eu comecei.

Realmente foi uma mudança muito impactante, um choque muito grande. E como falei anteriormente, eu tenho recebido muito apoio de amigos, colegas de trabalho, alunos, ex-alunos e pessoas que vão às minhas festas, tanto no Rio quanto em São Paulo. As pessoas se solidarizaram, fizeram doações pessoais, agora estão fazendo doações nessa “vaquinha” também… graças a Deus! Eu tenho tido esse apoio, aqui no Brasil, pois, aqui não tenho parentes sanguíneos. O único parente que tenho realmente é minha mãe (sou filho único) e ela mora no Peru e já tem uma idade avançada. Praticamente a minha família aqui no Brasil são meus amigos! E graças também a algumas aulas e traduções, tenho conseguido me manter.

O ano de 2020 tem sido um desafio muito grande para muitas pessoas. Muitos perderam entes queridos, outros perderam suas fontes de renda. Ainda assim é possível tirar algumas lições positivas? Em seu caso especialmente falando Victor, é possível ver um lado bom apesar de tudo que você tem vivenciado? Onde você busca forças para prosseguir firme na jornada?

Bom realmente o ano de 2020 tem sido um grande desafio para muita gente, como você mesma mencionou. Muita gente perdeu a vida, os empregos, familiares, os negócios e eu ainda por cima perdi uma perna. Então, tem sido um pouco difícil, mas eu não vejo o acidente como algo necessariamente negativo. Eu lembro que outro dia eu estava indo ao hospital, onde eu sofri a amputação, e estava com um amigo e por coincidência o acidente foi bem perto desse hospital. E esse amigo me perguntou na hora que estávamos saindo (fui resolver umas questões de prótese, prontuário, documentação, etc.), aí ele me perguntou: – Victor foi nessa esquina que foi seu acidente? E de repente eu tive um “insight”, uma luz, ou revelação, não sei como chamar, e fiquei pensando na pergunta dele e eu respondi: – Olha eu não vejo esse lugar como acidente, eu vejo esse lugar como renascimento, sabe… Eu não vejo a data do acidente como algo negativo, eu vejo a data do acidente como um novo aniversário de vida! Porque realmente eu renasci, sabe, parece que antes do acidente eu era uma pessoa, e que agora sou outra pessoa… É por incrível que pareça, quando a agente tem tudo ao nosso favor, no caso eu tinha às duas pernas, eu não dava valor a muita coisa, sabe… O tanto quanto eu dou valor agora, que eu não tenho uma perna. Então, hoje eu me sinto uma pessoa diferente, uma pessoa nova! Talvez uma pessoa mais batalhadora, uma pessoa mais resiliente. E eu costumo dizer para os meus amigos que chorar não vai fazer minha perna crescer de novo, entendeu. E o que eu tenho que fazer de melhor agora não é me lamentar, para ninguém, Deus, o acidente, enfim… O que eu tenho que fazer agora é correr atrás.  E viver um dia de cada vez e pensar também nas possibilidades de como resolver, como me readaptar, entendeu. Então realmente o acidente me fez ver a vida de outro jeito, e realmente me sinto outra pessoa agora.

Você acredita em Deus? O que você poderia dizer a alguém que esteja passando igualmente por momentos difíceis e precisa se reerguer?

Eu acredito em Deus, não sou praticante de uma religião, católico ou protestante. Acredito em Deus sim, estudei numa escola cristã a vida inteira no meu país. E acredito que existe uma força, uma entidade, algo além de nós que criou tudo isso que a gente está vivendo hoje. E realmente eu rezei muito durante a minha estadia no hospital, depois do hospital, atualmente, rezo bastante para ter forças para continuar. Acredito que sem esse lado espiritual nosso, a gente não consegue fazer nada, sabe. A gente pode almejar, a gente pode querer, mas sem o espiritual, tudo fica mais difícil. Sem Deus, tudo fica mais difícil. E eu gostaria com certeza, de quando eu estiver reabilitado, quando estiver com a prótese, de conhecer pessoas que estão passando pelo mesmo problema e de alguma maneira contar como foi minha experiência, como foi a reabilitação, como foi o processo de adaptação com a prótese e, porque não ajudar? Com os contatos que tenho, com as “vaquinhas on-line” que conheço para ajudar a recolher recursos. Porque tudo que a gente ganha nessa vida, a gente não leva para outra vida, então a gente tem que passar adiante! E tudo que a gente aprende aqui, a gente tem que dividir isso com todo mundo. Isso que vai fazer a gente uma pessoa melhor…

Para quem deseja fazer aulas “on-line” precisam de um tradutor e também para quem queira ajudar na arrecadação de fundos para a prótese, como podemos te encontrar?

Meus contatos são:

INSTAGRAM: espanhol.insta

WhatsApp: 21 9.9267-1881

“VAQUINHA”: Solidariedade / Saúde / Caridade

http://vaka.me/1479655

Muito obrigado!


extraído:  https://revistastatto.com.br/lifestyle/entrevista/entrevista-com-victor-mory-dj-floro-do-peru-para-o-brasil/












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ENTREVISTA COM A ENFERMEIRA VALDELÍCIA SANTIAGO - revista STATTO

 


Apresentação:

Valdelicia poderia traçar um histórico de sua jornada profissional até os dias atuais?

O interesse pela área da saúde sempre existiu. Sempre me atraiu e muito. Sinto-me confortável em um ambiente que para alguns é o “caos”. Trabalhei em vários segmentos até iniciar como recepcionista em uma Instituição. E o que era interesse se tornou paixão. Fui adquirindo conhecimento administrativo, como tratar as pessoas e fui me interessando cada vez mais pela enfermagem. Decidi ingressar no curso de auxiliar de enfermagem. E nos estágios senti que era esse meu caminho. Trabalhar na área da saúde foi uma escolha. Estar próxima ao paciente, prestando cuidados é uma das atuações importantes e primárias da profissão. Prossegui nos estudos. Fiz faculdade, me formei em Bacharel em Enfermagem. Fiz duas pós voltadas para o ensino. Uma específica em Docência na Saúde. E hoje acompanho estágios como supervisora, dou aulas teóricas, cursos…. Ser docente não é um trabalho do tipo free lance. É minha profissão. Acompanhando alunos em estágio posso continuar na prática e estar próxima aos cuidados prestados ao paciente/cliente. Participar da formação de novos profissionais é enriquecedor porque de alguma maneira sinto que estou deixando uma parte minha com cada aluno, e fico com partes desses alunos comigo. Enriquecendo assim meus conhecimentos. É uma troca replicar conhecimento, estou em constante aprendizado! E posso dizer com toda certeza que me sinto privilegiada em poder dizer que amo o que faço e faço o que amo. Ser docente é um aprendizado infinito. Porque através dos meus alunos estou sempre buscando aprender…. É estimulante. Gratificante em muitos aspectos… É extremante maravilhoso ouvir alguém me chamando e dizer “oi para o” fui seu aluno… Mas eu continuo buscando novas atualizações. Esse ano já estou prestes a realizar o Curso de PICC (Cateter Venoso de Inserção Periférica) e pretendo fazer Pós em Estomoterapia.

E na vida pessoal, como conseguiu desempenhar o papel de mãe, esposa, filha e agora avó? Conciliar de maneira equilibrada a vida pessoal e profissional, estando na área da saúde é possível?

Sim. Hum…. É preciso encontrar o meio termo. Há fases que fiquei totalmente voltada para o trabalho. É claro que ainda existe a necessidade de descanso. Em alguns momentos é preciso abrir mão de reuniões familiares, de passeios e viagens… Mas é possível equilibrar o trabalho, família e vida pessoal. Claro que pode acontecer algumas cobranças do parceiro em alguns momentos. Mas é possível sim. E é preciso. Você precisa ter um descanso porque o envolvimento emocional é intenso muitas vezes. Precisamos de um tempo para cuidar de nós. E ter algo para fazer fora da profissão. Ler, praticar esportes, viajar, realizar atividades que de certa maneira nos afasta da nossa rotina.

Você se considera uma profissional muito exigente? Como é o olhar de uma profissional de seu gabarito em relação a nova safra de profissionais da área?

Sou mais exigente comigo. Mas sou exigente também com o profissional que estou participando da formação. Esse é meu momento. Cuidar da vida de outra pessoa exige responsabilidade. Vou ser bem sincera, há momentos que fico preocupada ao observar alguns da nova safra. Mas posso dizer que também está surgindo muitos bons profissionais. Que querem e sentem vontade de fazer a diferença. E eu procuro transmitir da melhor maneira possível à necessidade dos novos fazerem a diferença.

As novas gerações romanceiam a área da enfermagem. Já as antigas sabem o quanto foi sacrificante atuar na profissão.  O que a enfermagem representa para você?

Acredito que tanto no passado como no presente a profissão tem seu lado de sacrifício para atuarmos. Alguns acreditam que na profissão não faltará emprego. Eu gosto e costumo dizer para os meus alunos, os novos profissionais e mesmo para as pessoas, que não somos anjos. Somos profissionais capacitados para cuidar de pessoas. Temos uma profissão. Costumo brincar que atuar na área é preciso ter muita força e vontade. A enfermagem é a profissão que eu escolhi paralela à docência voltada para enfermagem. E costumo dizer: se mil vezes pudesse escolher, mil vezes escolheria enfermagem. Uma pessoa me perguntou esses dias porque escolhi a enfermagem. Uma profissão que me deixa tão próxima a dor e ao sofrimento. Mas não é só dor e sofrimento. E não se trata de querer aliviar a dor do outro, porque em alguns momentos somos impotentes e nada podemos fazer. Envolve ciência, pesquisa, aprendizado, cuidado. Para cuidar você precisa conhecer. Você precisa saber. E aliado a todo conhecimento ainda posso segurar a mão de alguém em um momento difícil.

Em sua opinião por que a área da enfermagem, principalmente técnica e auxiliar, não é bem remunerada?  O mesmo ocorre com enfermeiros padrão (com nível superior)?

Procurar uma única razão é complicado. Nesse aspecto podemos abrir um leque de razões. Nos dias atuais temos muitos profissionais da área em busca de uma colocação. Este ano muito se falou sobre isso. Esperamos que a classe seja valorizada tanto em aspectos financeiros como em respeito pela própria profissão. Imagina que em muitas instituições a enfermagem não tem nem mesmo uma sala para repouso. O que temos é a esperança de que os órgãos que nos representam lutem por essa conquista de salários dignos, condizentes com a profissão!

Quais as melhores lembranças que a área te proporcionaram? Consegue citar algumas?

São muitas. Algumas marcam mais que outras. Sem parecer “piegas”, mas ver um paciente voltar e te agradecer pelo cuidado. Um filho retornar para casa, um pai, uma mãe é gratificante. A pessoa está frágil e confia nos cuidados da enfermagem. Posso citar a mais recente. Paciente com AVCH, há meses hospitalizado, sem falar e numa manhã como outra qualquer vou cumprimentá-lo e ele me diz “oi” movimentando os lábios. Não dá para descrever a alegria desse momento. O que faz a diferença é o olhar do paciente ou do familiar. Os olhos são espelhos da alma e não mentem. E ver o agradecimento no olhar da outra pessoa e tudo.

E das lembranças mais difíceis? Poderia mencionar uma?

Uma mãe idosa com um filho internado na oncologia em estado terminal segurou as minhas mãos e perguntou se seu filho seria curado. Eu lhe disse para pedir para Deus fazer o melhor por seu filho…  Saí do quarto e chorei! Para uma mãe, filho não tem idade. Como mensurar a dor de uma mãe? Na verdade, eu ainda choro nos dias atuais. Um aluno uma vez observou: – “Pro”, a senhora ainda chora? Respondi que ainda tenho canal lacrimal. Kkkkkk. Completei… O dia em que a dor do próximo não me atingir então é hora de me afastar da profissão.

Teve uma moça há alguns anos, com traqueostomia, eu realizava a aspiração e aproveitava para falar com ela. Ela só se manifestava pelo olhar. Quando precisei deixar o setor fui me despedir dela e ela chorou, nem preciso dizer que saí chorando. Nesse momento de fragilidade o paciente confia em você. Se sente seguro. Daí a importância do cuidado humanizado, que precisamos colocar em prática.

O que você tem visto nos hospitais, clínicas ou casas de repouso, em relação a proteção das equipes contra a COVID-19? Os EPIs, precauções, medidas de segurança tem sido eficaz até que ponto?

Percebo que existe sim preocupação em relação à equipe e o uso de EPIs é cobrado realmente. Até onde pude observar as devidas precauções tem sido tomada. Para as medidas de segurança ser eficaz, é preciso que o profissional assuma a sua parte. Higienização das mãos, o uso correto dos EPIs e todos os cuidados de precaução precisam ser tomados. Na verdade, a eficácia depende muito de cada um de nós. Porque você pode ter acesso a todos os EPIs, mas se não fizer uso correto, higienização das mãos e etc., o resultado será negativo. Eu particularmente acredito que é uma questão holística, que envolve cada um de nós. E uma fase de conscientização. De mudança de hábitos.

Você perdeu muitos amigos, conhecidos e etc. da área e/ou fora dela para a COVID-19?

Sim. Da área perdi pessoas conhecidas, pessoas do meu convívio. Soube de pessoas ligadas a colegas e amigos. Eu vivi a COVID-19 com meu irmão que ficou em estado grave e com meu filho que é da área (tratou em casa). Quando vai chegando mais perto da gente é assustador. Tem sido dias difíceis.

Qual mensagem gostaria de deixar as pessoas nesse momento ainda um pouco incerto, onde cuidar das emoções, do físico e das finanças tem sido um grande desafio?

Vai passar. Tudo passa. E isso também vai passar. É preciso que aprendamos a viver um dia de cada vez…. Na verdade, já há alguns anos eu costumo dizer: um segundo de cada vez! Porque em um segundo nossa vida pode mudar. Precisamos ter calma, paciência, encontrar força e coragem nesse caos todo. Descobrimos na pandemia que muitas coisas que pareciam importantes não eram tão importantes assim. Mas é preciso que no final, mesmo com todas as dores que tivermos vivenciado, o saldo seja positivo. É um momento de mudanças, de conscientização tanto de nós profissionais como de toda a sociedade.

extraído: https://revistastatto.com.br/lifestyle/entrevista/entrevista-com-a-enfermeira-valdelicia-santiago/




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